"Quando o coração tem uma missão, o corpo ganha vigor"

Entrevista André Szucs

Segue abaixo entrevista do André vinculada no site da Cbtri .



André Szucs não é somente um dos grandes triatletas paraolímpicos brasileiros. Ele é um pensador do esporte. Tem visão privilegiada de cada movimento olímpico e paraolímnpico mundiais porque tem na pesquisa uma das suas ferramentas de crescimento.

Portanto, entrevistá-lo após o triathlon ingressar no Programa da Paraolimpíada do Rio 2016 passou a constar na nossa “Ordem do Dia”. E (que bom) ele encontrou tempo em sua agenda atribulada para nos conceder a bela entrevista abaixo.

Após lê-la certamente muitas cortinas deste universo paraolímpico abrir-se-ão. E, se Deus quiser, seu exemplo ampliará a participação de muita gente que quer (e muito) dar o primeiro passo.

Enfim, André se apresenta (só para variar), em sua completa amplitude. Não se deixem seduzir se forem capazes. 

Você que sempre batalhou pelo crescimento do esporte como encara a inclusão do triathlon no Programa da Paraolimpíada?
A Olimpíada é o evento máximo para muitos esportes (salvo o futebol no Brasil). Na hierarquia, de maneira geral, vem em segundo lugar o Mundial, Pan-Americano e assim segue. No caso do paratriathlon, tínhamos o Mundial como evento máximo, organizado pela ITU (União Internacional de Triathlon) por 15 anos, mas isso nunca foi o suficiente para proporcionar à modalidade o respeito e profissionalismo que sempre mereceu, pois a quantidade de participantes sempre foi mínima e de pouca seletividade. 

E agora?
No Brasil, para que uma modalidade tenha progresso, é fundamental que o apoio seja proveniente de Leis Federais, que por caminho natural, vai para nossos Comitês Nacionais, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e CPB (Comitê Paraolímpico Brasileiro). Hoje esse apoio constitui-se por meio da Lei Agnelo/Piva, sendo que, da arrecadação bruta de todas as loterias federais do país, 85% vão para o COB e 15% para o CPB. O cenário após a inclusão da modalidade nas Paraolímpiadas muda completamente, pois o CPB agora passa a representar a modalidade inclusive com recursos financeiros disponíveis já para 2011, o que desencadeia o "efeito progresso", que se traduz, por exemplo, com a despertar de outros novos para-atletas para a prática da modalidade. 

E o que isso pode gerar?
Gera competitividade, seleção dos melhores e por fim, qualidade. Sou muito positivo em pensar que isso acontecerá nos próximos seis anos. Acredito que isso também acontecerá no mundo inteiro, com cada país e seus respectivos Comitês. 

Já esperava por isso?
Foi uma caixa de surpresa. Prova disso foi que disputamos a vaga com mais seis modalidades: badmington, canoagem, golfe, futebol em cadeira de rodas elétrica, taekwondo e basquete para pessoas com deficiência intelectual. No fim, por seis votos a quatro, a canoagem e o triathlon foram aceitos na inclusão. 

O que foi decisivo?
Esse processo de decisão, certamente teve o impacto de uma mobilização mundial e tivemos como principal "arma" de divulgação, uma comunidade no facebook com quase seis mil pessoas apoiando. 

Como pretende se preparar para a disputa?
Respondendo em nome de todos: seis anos é um período ótimo para "acordar" para essa nova realidade do esporte. O paratriathlon agora sobe de status, exige ainda mais seriedade e profissionalismo de todos. Maiores disputas ocorrerão e pertinente a isso, todos que tiverem interesse pela modalidade terão que entender o processo de classificação funcional, que é o ponto chave para o sucesso ou insucesso de um atleta no mundo paraolimpíco. Sendo breve: classificação funcional é o processo que todo atleta precisa passar para determinar o grau de deficiência que possui e em qual categoria tal deficiência se enquadra para competir em condições justas. 

Como é no triathlon esta classificação? 
No Triathlon, são seis categorias: TR1, TR2 ,TR3, TR4, TR5 e TR6 (Tr1 =deficiência mais severa), TR6 (menos severa). 

Como a classe dos atletas de triathlon paraolímpicos recebeu o fato? 
Tenho certeza que hoje, todos os praticantes da modalidade estão extremamente felizes, como eu, em poder mostrar o nosso trabalho para o mundo em um formato muito mais profissional. 

Você tem uma tese muito interessante como o triathlon ajuda no reforço da auto-estima do atleta paraolímpico pelo seu caráter de superação... 
Essa questão do desafio é muito trabalhado na fase pós-trauma para aqueles que por ventura venham a se envolver em acidentes com lesão física e também naturalmente trabalhado por pessoas que nascem com deficiência. 

Sim...
Já que o triathlon trata-se de três esportes num só, as pessoas que terminam uma prova dessa sentem a incrível energia de missão cumprida, que por sua vez, condiciona a pensar que se conseguem fazer isso, conseguem fazer qualquer coisa. 

Sabemos que o Brasil tem grandes talentos consolidados. E dos novos talentos é possível apostar em algum? 
O Rivaldo Martins é um atleta muito forte, que pratica a modalidade por mais de 20 anos, sem dúvida é uma arma brasileira poderosa! Temos também o Roberto Carlos que já representou o Brasil em vários Mundiais e também já conquistou alguns pódios. O Angelo Borin, que também surpreendeu no último mundial de Paratriathlon que aconteceu em Budapeste/Hungria: ele veio da natação (assim como eu), O Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê, também já representou uma vez o Brasil no Mundial de Cancun e também se saiu muito bem. Até 2016 muita coisa muda, novas "figuras" com certeza surgirão para animar a festa (risos). É muito difícil "apostar" em alguém agora. 

Como está a sua rotina hoje? 
Sou consultor de markteting/vendas de uma empresa Protesista/Ortesista, sendo que a minha dedicação para conciliar os dois lados precisa ser bem divida, contudo, meus planos com o triathlon estão bem consolidados e pratico por paixão, que é um fator diferencial durante a fase de treinamento. 

Quais planos para 2011? 
Como maior objetivo, inicio meus treinos em 2011 visando ao Mundial de Paratriathlon de Pequin/China de setembro, organizado pela ITU. Também estou planejando competir no Mundial de Ironman no Hawaii em outubro, mas isso ainda depende de um processo de seleção por meio de um sistema de loteria da organização do evento. Estou na expectativa.


Fonte: Cbtri.

Pan Americano em Porto de Galinhas

Quase todos já devem ter lido a respeito do desastre que foi a organização do Pan Americano de Triathlon de Longa Distância realizado em Porto de Galinhas, de todo o descaso e desrespeito com os atletas, colocando centenas de vidas em perigo.

Citando uma frase que recebi por email, resume bem a questão " a organização da prova não merece nosso reconhecimento", então vou compartilhar com os amigos minha epopéia na prova e tentar deixar um pouco de lado o caos que foi a organização da prova.

Cheguei no destino na Quarta (24/11) a tarde. Fui direto ao local da natação, e um susto logo de cara, um mar com muitas ondas e bem mexido, não tive coragem de cair na água sozinho.

Na quinta fui caminhando pelo praia até o "centrinho", cerca de 2km do hotel, lá o cenário é totalmente diferente, sem ondas e águas cristalinas. Nadei uns quinze minutos, observandos corais, recifes e peixes, lugar sensacional!!! Pensei na hora, os caras não vão fazer essa burrice de fazer a natação naquele lugar inóspito. A foto abaixo diz tudo:


Ainda na quinta, na parte da tarde, encontrei os organzidores(tá arruaceiros, foi...que me processem) da prova na praia e ainda estavam procurando o melhor lugar para fazer a largada, e falei que era a dois km daqui, mas disseram que seria ali mesmo. Entrei com eles no mar para umas braçadas, foi o prenúncio do sufoco que seria no domingo.
Para piorar, no sábado a tarde durante o congresso técnico foi informado que as distâncias seriam menores do que o informado. As novas distâncias seriam 2250m de natação, 60km de ciclismo e 15km de corrida. Detalhe, 35% do ciclismo seria em blocos de concretos, em piores condições do que encontramos aqui na prova do Laranjal, pobre das minhas rodas novas.



No domingo 05:30 foi dada a largada, e talvez por força do destino o mar estava em condições piores que dos dias anteriores. Me posicionei junto com triatletas locais que tinham um bom conhecimento do mar da região, e foi o que me salvou. Largamos fazendo um arco por causa da forte correnteza, passando a dura arrebentação a correnteza nos largou diretamente na primeira bóia.

O mar estava muito mexido, o que dificultava enchergar as bóias. Nadei forte o tempo inteiro, mas não visando um tempo bom e sim sair vivo e o mais rápido possível daquele pandemônio.

Na terceira volta já estava exausto, e ainda precisava passar a arrebentação. Sem forças tomei alguns caudos e por consequência uma hidratação forçada com água do mar. Saí totalmenteo tonto, com as panturrilhas travadas. Não consegui nem trotar até a transição, restou ir caminhando.

Tentei reagrupar forças no início do pedal, pensando "vamos lá, o pior já passou", mas o corpo não respondia. Ainda dividia o percurso com motos, carros, ônibus e caminhões, sem falar nos blocos de concretos. Com 2 voltas feitas, eu tinha incríveis 29km/h de média. Aos poucos as coisas foram melhorando e o pedal fluiu melhor, terminei a etapa com 31,5km/h com 63km percorridos.


Na corrida o bicho pegou de vez, me arrastei pelos 15km. Foi a primeira vez que caminhei numa prova,
parte muscular do peito doía muito devido ao esfoço da natação, sem falar nas panturrilhas que toda hora ameaçavam travar. Em alguns momentos tive que correr estilo asa-delta rsrs, a parte interna dos braços e axilas estavam em carne viva, devido ao sal do mar.


Fechei a prova em 4h40min, talvez bem acima do que poderia fazer em condições normais. Mas como o talvez é subjetivo, foi o máximo que deu para fazer. Em números, no age group 14/36. 

Agradeço o apoio de todos, pois foi fundamental para manter-me motivado e confiante para vencer essa batalha.

Sonhando com mais(talvez muito mais) para o próximo desafio, deixo 3 vídeos da prova.